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Gestão do Eu e suas Emoções

Gestão do Eu e suas Emoções

Atualmente, nesse mundo tão tecnológico e digital, os seres humanos ainda não conseguem gerir seu próprio eu de forma inteligente, quem dirá suas emoções.

Falamos “eu” o tempo todo. Parece que entendemos bem a dimensão dessa diminuta palavra, mas frequentemente somos mais leigos do que imaginamos. O Eu não é um simples pronome que utilizamos nas conjugais verbais para realizar tarefas: eu posso, eu quero, eu vou. Esse eu pronominal é superficial, um agente reacional, um ator secundário. O Eu psiquiátrico, psicológico, filosófico e sociológico é infinitamente mais complexo do que o eu pronominal. O Eu é o centro administrador da mente humana. Quem é o Eu e quais são seus papéis fundamentais? Ele possui ao menos vinte papéis fundamentais? Ele possui ao menos vinte papéis primordiais – funções sofisticadíssimas que o qualificam:

 

1 – Autoconsciência e capacidade de se autoconhecer

2 – Autocrítica e capacidade de escolher

3 – Identidade psíquica e social

4 – Gestão dos pensamentos

5 – Qualificação dos pensamentos e das ideias

6 – Qualificação das imagens mentais e das fantasias.

7 – Gestão da emoção

8 – Proteção e qualificação da emoção

9 – Vítima da carga genética, mas autor da própria história.

10 – Vítima do sistema educacional, mas autor da própria história.

11 – Vítima dos conflitos na infância, mas autor da própria história.

12 – Fonte de abertura e fechamento das janelas da memória

13 – Fonte de produção consciente das janelas da memória

14 – Reedição do filma do inconsciente

15 – Gestão do fenômeno da psicoadaptação

16 – Gestão da lei do amor e do maior esforço

17 – Modulação do fenômeno do autolfuxo

18 – Autoria das funções mais complexas da inteligência

19 – Construção da história social

 

Em outras palavras, o Eu representa a autodeterminação, nossa autoconsciência, a capacidade de escolha, o livre-arbítrio, a autonomia, a consciência da essência humana (o que somos), da nossa identidade (quem somos), do nosso papel social (o que fazemos), da nossa localização no tempo e no espaço (onde estamos). O Eu se alicerça em bilhões de informações e experiências arquivadas nas matrizes do córtex cerebral, inclusive as lembranças construídas a partir da vida intrauterina e nos primeiros estágios da infância.

Assim como o alicerce de um edifício o sustenta, embora ninguém o enxergue, a maioria das experiências existenciais que alicerçam o Eu não são lembradas de forma consciente.

Fundamentado em seus alicerces históricos, o Eu como gestor psíquico deveria desenvolver os mais diversos níveis de habilidade para escolher amizades, objetos, ambientes, situações; tomar atitudes, reagir, calar, falar; traçar caminhos, sonhar, eleger alvos; atuar dentro de si, compreender-se, agir, recuar, modificar sua história, se acomodar.

Mas será que somos educados para ser líderes de nós mesmos? Para gerir nossa mente e nossas emoções?

Diante de um estímulo – do comportamento de alguém, por exemplo -, detona-se um fenômeno inconsciente chamado gatilho da memória, que abre, numa fração de segundo, janelas da memória. Essas janelas estão localizadas numa área de leitura do córtex cerebral que contém milhares de informações. Portanto, sempre entendemos os estímulos a partir de nós mesmos. Um psicólogo clínico entende seus pacientes com ataques de pânico ou crise depressiva a partir de si mesmo. Da mesma forma, um professor compreende seus alunos a partir das janelas arquivadas nas matrizes do próprio córtex cerebral. É que cada um cria seu mundo interior, e enxerga as coisas de acordo com as suas concepções e não na do outro.

Por isso, o Eu, se bem formado e treinado, deve aprender a nos esvaziar tanto quanto possível de nós mesmos – de nossos preconceitos, ideologias, paradigmas, falsas crenças, verdades absolutas – para podermos enxergar os fenômenos do mundo de forma objetiva. Assim poderemos ver nossos filhos, alunos, colaboradores e parceiros amorosos o mais próximo possível daquilo que eles realmente são. Caso contrário, o pensamento se torna uma forma de controlar, apequenar e distorcer a realidade. Sempre há distorções, mas elas têm de ser minimizadas ou nos tornaremos ditadores, inclusive de quem amamos, apesar de vivermos numa sociedade livre.

E o pior é que muitos casais não tem a mínima consciência de que enxergam um ao outro com os próprios olhos, de que suas interpretações são contaminadas por seu estado emocional (se estão se sentindo alegres, animados ou deprimidos), pelo ambiente social ou por sua personalidade.

Rejeitar, punir, controlar, odiar e sentir ciúmes são exemplos de interpretações doentias de um parceiro em relação ao outro. Mesmo namorados adolescentes que parecem ser tão livres na era digital frequentemente são carrascos um do outro. Eles têm um Eu malformado, que não compreende as armadilhas da mente, muitas vezes alojadas no inconsciente. Por isso não conseguem se esvaziar, mudar seu ponto de vista e pensar antes de reagir. Se o Eu for imaturo, malformado, não saberá se colocar no lugar do outro, continuará julgando, condenando e criticando de forma dramaticamente distorcida.

Quem é o Eu? Como se forma? Em que estágio deixa de ser vítima vira protagonista de sua personalidade?

Muitas pessoas nem se questionam sobre isso. O Eu frequentemente é um piloto imaturo de uma complexa aeronave chamada mente humana. E que consequência isso traz pra gente? Inúmeros acidentes: crises de ciúmes, atritos, conflitos, traições, necessidade doentia de mudar os outros. Há ditadores que nunca dirigiram a própria mente, como Hitler, mas desastrosamente se habilitaram a dirigir nações. Há executivos que jamais gerenciam a própria necessidade neurótica de controlar os outros, mas se acham competentes para controlar grandes empresas com milhares de funcionários. Em cenários como esses, a falência das relações sociais é inevitável.

Além disso, é preciso ter consciência de que o território emocional é valiosíssimo; não pode ser violado pelo lixo social. Temos consciência de que ninguém pode pegar nosso carro e dirigir sem nos pedir licença. Ninguém pode adentrar nossa casa se não receber nosso convite. Mas nossa emoção tem sido terra de ninguém, qualquer perda dilapida o patrimônio da nossa tranquilidade. Não somos treinados para proteger esse delicadíssimo espaço.

Então como eu perguntei antes, em que ponto nosso Eu deixa de ser vítima da carga genética e do ambiente social e passa a ser protagonista de sua personalidade? Cabe saber que a carga genética é expressa pela memória genética, que financia os instintos e suas manifestações – como a fome, a sede, a libido, a impulsividade, a reatividade, a instabilidade emocional e a agressividade -, pelo metabolismo dos neurônios e das sinapses cerebrais – determinado pelos neurotransmissores cerebrais (como serotonina, adrenalina, noradrenalina, acetilcolina, entre outros). Com certeza esses fatores influenciam o processo de formação da personalidade e a produção dos comportamentos.

Entre a influência e a determinação existe um fosso enorme. A carga genética influencia, mas não determina a formação dos transtornos psíquicos. O Eu, quando bem formado, pode e deve desempenhar seus papéis fundamentais – descritos há pouco – para escapar da influência da carga genética. Portanto, um filho com uma mãe deprimida, poderá ser alegre e bem resolvido se tiver um Eu bem formado.

Do mesmo modo, os conflitos na primeira infância, como privações, perdas, abusos sexuais, rejeições, abandonos, limitações e doenças físicas, podem acabar controlando o processo de formação da personalidade durante toda a sua vida. Mas se o Eu for bem estruturado, se desenvolver funções de autocrítica, de gestão da emoção e qualificação dos construtos psíquicos, sem dúvida pode se tornar protagonista da própria história e, consequentemente, transformar o drama em comédia, as perdas em maturidade, os traumas em experiência.

Pensamento de hoje: “O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”. Aristóteles

Tirado do Livro>Mulheres Brilhantes de Augusto Cury

Sobre o autor | Website

Lívia Croce é Coach de Líderes e Empreendedores

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